Segunda-feira, Março 23, 2009

lanternas no escuro.

seguia naquele passo gingado dos felinos, sem síncopes ou obstruções, um pé atrás do outro, como se fosse parar a cada instante. não pretendia parar, mas para que a pressa? ainda que no passo indolente, chegaria em seu destino na hora exata, nem atrasado, nem adiantado. sequer se importava com o conceito de horário. nunca lhe fizera muita diferença, então jamais precisou aprendê-lo. o que importava é que não estava pardo: era dia.
 
surgiu-me repentinamente, como era de se esperar: que gato não surge repentinamente? encostado, então, finalmente no velho banco onde eu estava, decidiu notar-me. ou, pelo menos, permitiu que me sentisse notado. encarou-me como se inquirisse quem eu era e como ousava interromper seu passeio. olhou-me do fundo dos olhos, através daquelas lentes abissais, galáxias aprisionadas na fina carne, e me assustou. não sei ao certo porquê, não poderia me fazer mal. mas não era, na verdade, puramente medo. era uma sensação de invasão, como se aquele olhar pétreo pudesse, à sua mais ínfima vontade, devassar tudo que em mim havia ou houvera um dia. eu temi, naquele instante, sem entender.
 
daqueles rubis cintilantes, lanternas apontadas para o findo, vieram também histórias antigas como o tempo, uma sabedoria milenar, a absoluta confiança de quem tudo viu, a quem nada mais impressiona. era uma vida ancestral, fabulosa, que se desenrolava naqueles olhos, como se a sua luz vermelha retroprojetasse em mim tudo o que viram desde a criação do céu e da terra. permiti-me levar, mergulhando em seu conto e nas sensações que, candidamente, me ofertava. 

ele, meu companheiro de banco e oponente ocular, era verdadeiramente um gato, do começo ao fim, em toda a sua inteireza e profundidade; um dos seres mais mitológicos, mais misteriosos de que se ouviu falar; almas antigas, talvez diversas vezes reencarnadas, guardiãos eternos da fronteira entre os mundos, este e os próximos. talvez por isso vivam tão bem no negro e no sonho: caminham gentilmente sobre os espíritos que ali sempre estão, eternamente iluminando a noite, para quem sabe onde olhar.
 
apesar da velha alma, entretanto, ele tinha, como todos os gatos, um coração jovem. era um moleque, na verdade. poderia passar infindáveis horas numa caçada impensável a um ponto de luz na parede. a despeito da languidez dos olhos e da imprevisibilidade de movimentos, ou talvez especialmente por isso, era uma criança infinita, fugitiva de limites e obstáculos.
 
quis, durante os séculos de duração daquele lampejo de olhar, ser aquele gato. caçar borboletas e pontos de luz, voar sobre telhados e corações, caminhar sobre espíritos. independer de atenções externas, independer de tudo, tomar banho de sol, banho de sol, banho de sol. esquecer os possíveis amanhãs e os famigerados ontens, felizmente já soterrados pela infinidade de lembranças acumuladas e perdidas desde então.  guardar, enfim, as fronteiras do mundo.
 
meu oponente, então, com aquela sua alma antiqüíssima e eterna, percebeu sua vitória sobre mim e, tendo conseguido mais um servo, seguiu seu destino, fortuitamente distinto do meu. saltou para um muro improvável, numa acrobacia impossível e seguiu compassando, gingando ao som de minúsculos batuques, sua orquestra pessoal. em breve, seria outra vez invisível, repentino, perceptível apenas pelas duas lanternas na escuridão: em breve, estaria pardo novamente.

Segunda-feira, Março 16, 2009

aquelas ruas de maio.

nos seus olhos fundos, guardava tanta dor. a dor de milênios, de centenas de vidas, de muitos mundos, não só deste (ainda que todo este). lembro-me hoje como se fosse então, como se ainda a visse debruçada na janela. todos os dias, encostava-se na janela para olhar o tempo passar, era quase como se jamais deixasse o seu posto vigilante. mas ela não olhava, não via, não enxergava nada. somente esperava, como se dizia na época, por quem não havia ficado de ir.

ela era como um dos seguidores de são caetano, aquele que vivia da bondade dos outros, mas não tinha permissão para pedir pela ajuda. esperava pelas festas, pelas estrelas cadentes, mas, quando aconteciam, não lhes dava atenção: esperava. nem o nascimento de uma rosinha quebrava o encanto em que era envolta: permanecia imóvel, uma estátua antiga como a memória, carpida pela chuva na encosta de um vulcão irascível e incongruente. parecia verdadeiramente mais antiga que a casa, como se esta houvesse sido construída ao seu redor, uma redoma de proteção encomendada pelos deuses.

quando lhe conheci, no que parece ter sido uma eternidade atrás, eu, como tantos outros homens da época, me atirei em seus olhos tristes. joguei-me com o fervor dos apaixonados naquilo que me parecia o mais profundo recipiente de amor. então descobri, como os muitos antes de mim, que já não existia aquele amor, que subsistia apenas um retrato, uma imagem gravada na negra pedra vulcânica da estátua, resultado de um amor há muito findo, jamais correspondido e ainda esperado.

versos cantados para lhe agradar, tentativas de fazer-lhe aceitar o fim do eterno querido, mas ela não ouvia, como não olhava: esperava. era uma mulher com mania de estátua. com o passar do tempo e as agruras da derrota, juntei-me às hordas de desiludidos, desistentes da árdua tarefa de escalar a janela e roubar um beijo da gélida encosta montanhosa. pus uma imensa pedra em cima de tudo, na esperança de apagar seus vestígios, esquecendo a cidade, aquelas ruas de maio e, principalmente, a janela com sua estátua. 

tempos mais tarde, caminhando mais uma vez pelos antigos caminhos, deparei-me com a janela. estava apodrecida, carcomida, mas abriu-se em minha memória como um portal ao maio de outrora. voltaram-me a estátua, as rosas, as festas, as estrelas cadentes, esquecidos a tantas duras penas. mas ela não estava mais ali. no parapeito, só lembranças e restos: uma rosa morreu. o que foi feito dela, se ali houve vida, nunca soube e penso que jamais saberei. se definhou ao ponto da inexistência completa ou se foi encostada em algum porão de museu ou de família, não pude perguntar aos passantes: meu barco já partiria e era preciso pegá-lo. ainda mais, todos os redores estavam cobertos do novo mundo, novas rosas, amores reluzentes de tão recém-saídos da fábrica: dela, certamente, nenhum deles lembraria.

desde então, ela voltou a povoar minha memória, e com ela os arrependimentos, dúvidas, vontades latentes. foi quando vi, entretanto, que não havia nada, na juventude, que eu pudesse ter feito para tê-la. ela havia escolhido, provavelmente muito tempo antes de conhecê-la (será que chegou algum dia a me notar?), pela imobilidade e pela eterna espera do amor-mor; e a latência do sentimento me doeu repentinamente, como se todos aqueles inúmeros anos da estátua caíssem de uma vez em minhas costas, esquecendo da lentidão própria ao calejar. sofri com o tempo e seu movimento constante, sim, mas pior, bem pior, é o caso da moça-estátua: o tempo passou na janela e só ela não viu: esperava.

***

(sobreposição tímida a carolina, do chique buarque do brasil, e a muchacha en la ventana, de salvador dalí.)

Sábado, Fevereiro 28, 2009

a menina que chora.

a menina via novela e se emocionava. não era mais nenhuma criança, mas chorava como se fosse. como resposta àquelas hiperbólicas emoções das atrizes da antiga novela, soltava as suas aos borbotões. não entendia mais o que elas, as atrizes, falavam, nem o que elas, as emoções, queriam dizer, só se deixava levar pela tormenta do momento.

foi com outra menina na cabeça que adentrei a sala e capturei a imagem, da mesma forma como aquelas rolley-flex, ou coisa que o valha, haviam capturado as atrizes há tanto tempo. no momento que a vi, perdi inteiramente o fio da meada e esqueci o que pensava, me deixando levar, como ela, pelo momento. 

mas o meu momento era diferente: eu não entendia o que se passava. não sabia, naquele instante, que ela tampouco entendia, me deixando assim arrebatar pelo terror da cena. era aterrorizante, quero dizer, porque incompatível com o facilmente compreendido na imagem: uma novela antiga, uma sala azul com uma flor vermelha e um pequeno pato amarelo, e a menina chorando desesperadamente. era absolutamente incompreensível, porque ela nem ao menos olhava as imagens que passavam aparentemente com a rapidez dos filmes mudos. não olhava porque olhava o azul e o pato, restando-lhe apenas ouvir as vozes das esquecidas atrizes.

ela não poderia, então, estar entendendo o suficiente do acontecido na tela para chorar assim. o que haveria acontecido, então? eu não tinha coragem o suficiente no corpo, em todas as minhas fibras, para interrompê-la. sentia que ela poderia explodir numa erupção vesuviana, numa colisão de um imenso meteoro com um gigantesco satélite natural.

não podia continuar assistindo aquela cena, entretanto. teria sido minha culpa? mas eu nem estava na sala, não havia feito nada. de alguma forma, ainda assim, eu sentia que era. se havia sido eu o culpado, então, era meu papel fazer algo, ainda que temesse o momento de fazê-lo. interrompi aquela avalanche e esperei, terrivelmente assustado, que ela olhasse pra mim e explodisse em centelhas incandescentes de fogo dispostas a me destruir por tê-la interpelado naquele momento de privacidade.

não explodiu. tentou, inclusive (e essas centelhas quando querem rebentar, não há força que as segure), mas dessa vez algo a impediu. ela veio vagarosamente, então, até mim. cheirou, analisou, testou. não parecia mais a tempestade de antes, mas um esquilo, um daqueles minúsculos animais que rodeiam suas nozes dezenas de vezes antes de se aproximar. 

quando finalmente olhou nos meus olhos, os seus eram como duas opalas, duas imensas gemas coloridas, uma magnífica aurora boreal, daquelas que rasgam os céus polares em matizes mil. foi quando percebi que, a despeito dos momentos passados, o melhor estava por vir e que, ainda com erupções e trombadas estelares, havia algo naquela confusão de sentimentos e sensações que impedia que o mundo deixasse de ser formidável. mesmo que fosse a menina chorando.

Quinta-feira, Novembro 20, 2008

elza versus gal.

"mexe com as cadeiras, mulata, teu requebrado me maltrata". esses versos do velho ary barroso sempre representaram, na minha imaginação, a síntese de uma mulher ideal para mim. seria aquela louca, terrivelmente interessante, explosiva, insuportável, sempre incandescente, uma eterna fornalha de contradições e desejos insaciáveis. seria, em outras palavras, uma elza soares ou elis regina, com seus exageros, suas tendências ao superlativo. 

assim, desde o começo, desde as primeiras paixões, sempre que me pegava imaginando em conhecer alguém novo, essa mulher sempre se classificava como uma elza. me imaginava num bar, rodeado de amigos, conhecendo uma louca sambando em cima de uma mesa, brigando com o garçom, citando e seguindo a doutrina viniciana, segundo a qual ninguém tem nada de bom sem sofrer e tudo precisa ser infinito enquanto dure. em outras palavras, eu de saias, ou no mínimo alguém bastante parecido.

em contraponto às elza e às elis, existem as gal, as nana, as miúcha. são aquelas menos efusivas, somente aparentemente menos intensas, mas muito mais profundas, cheias de detalhes, pequenas rachaduras, cicatrizes quase não aparentes. são aquelas de gestos e palavras no ouvido, jamais de gritos. são precisamente aquelas que não precisam que o mundo saiba o que sentem, basta que elas e seus amores saibam. e é aí que reside a intensidade delas, bem sutil, às vezes imperceptível até para elas próprias.

esse segundo tipo de mulher sempre me pareceu, sinceramente, um pouco tedioso, embora mais incompreensível. não gosto de morno, gosto de quente. namorei, inclusive, uma elza. me apaixonei perdidamente por ela, me entreguei por completo. é claro que sofri horrores, nos matávamos aos gritos todos os dias. ainda assim, se tornou, mais tarde (bem mais tarde), uma grande amiga minha.

porque duas pessoas iguais ou sequer parecidas só podem ser amigas, jamais amantes. se matariam! de raiva ou de tédio. porque um relacionamento onde os dois são incandescentes não pode durar, da mesma forma como um relacionamento onde os dois são igualmente mornos é incrivelmente monótono e desprovido das pequenas descobertas que fazem o sentimento crescer.

eu percebi, não sem ajuda, que você se atrai pelo que parece com você, mas é o diferente que te conquista de jeito; que te faz entender o que é um sentimento profundo, independente de palavras; que te faz ver que só há sentido em procurar noutra pessoa o que não existe em você, porque é essa a maior felicidade de um relacionamento: a complementação, muito, muito mais importante do que a mera suplementação. passei a vida me apaixonando pelas elzas e elis do mundo, mas foi uma gal, uma nana caymmi quem me conquistou. vejam bem, não que me arrebatou, não que me jogou aos céus numa fornalha de paixão, mas que me conquistou realmente, como nunca antes, de forma lenta e gradual, devagar e sempre.

meu gosto amoroso alcançou, finalmente, meu gosto musical, que permanece o mesmo. numa roda de samba, numa noite fervente, num momento qualquer de intensidade, prefiro sempre os longos vocais da elza e da elis, com seus gritos, seus choros, suas dores inimagináveis. mas nos momentos verdadeiros, onde o sentimento suplanta a atração, seja numa sala vazia, numa rede, num momento qualquer de profundidade, não há nada que supere a voz quase perdida de uma gal, uma nana, sussurrando no meu ouvido: "ioiô, meu benzinho do meu coração, me leva pra casa, me deixa mais não..."

Domingo, Setembro 14, 2008

sobre um avô e uma espingarda.

chego na velha casa de praia, abro o velho armário, tiro a velha caixa. no instante em que a toco, lembro de meu avô, sinto o peso da sua memória, da sua ausência, da sua presença. afinal, a caixa guarda a última lembrança física do que ele fez e foi para mim. foi com aquilo, guardado na caixa comida pelas traças, que ele criou uma ligação entre nós dois, avô e neto não sangüíneos, e que me ensinou uma boa parte dos valores e princípios que hoje trago. 

abro-a e olho para a minha tão velha e tão querida espingarda. quantos lagartos, meu deus, quantos pássaros tombaram diante do seu estrondo rouco, quantas garrafas quebradas, quanta água de coco derramada pelo chão. coloque o cabo bem firme no ombro, ou a arma não atira direito, dizia ele para um garoto cada vez mais impressionado. eu, como qualquer outra criança influenciada por james bond, queria caçar, queria atirar em quem cruzasse o caminho. ele dizia, então, que não devíamos caçar sempre, porque aquelas também eram formas de vida, por menores que fossem, mas que tampouco se deve atirar com outro propósito. só aponte se for atirar e atire sempre e somente para matar, dizia. 

os anos passaram e ele não está mais aqui. levado por uma dessas doenças cruéis, uma dessas vilãs em forma de tumor, uma dessas tantas formas de morrer estúpidas. estúpida, sim, pois toda morte prematura é estúpida, embora muitas vezes inevitável. mas a espingarda continua aqui, invulnerável a essas vilãs, apesar de velha. tiro-a da caixa, retiro a maresia e a ferrugem, armo-a e atiro. com um estrondo já esquecido pelos ouvidos vivos, a garrafa azul de vinho estilhaça-se e cai, destruída e finda. 

engraçado, penso, os anos passam e a arma continua tão poderosa quanto sempre. penso que a memória do meu avô também seja assim. as décadas passarão, mas quando tirá-la de sua caixa devorada por traças, ela ainda brilhará, atirará e despedaçará a garrafa de vinho em cima do muro da casa de praia.

Terça-feira, Setembro 02, 2008

o poder da mulher bonita (ou a morena cratense).

eu não escrevia há meses. contista frustrado e cronista preguiçoso, tenho, de fato, deixado esse velho bloco de notas sem razão de ser há um bom tempo. não escrevia, é verdade, mas não por não gostar de fazê-lo. pelo contrário, amo escrever, sinto-me absolutamente livre. mas o papel está tão longe e a cama tão perto! e os homens devem, ao menos de vez em quando, entregar-se à preguiça, como se entregam a uma mulher bonita. de nada adianta lutar contra as duas, que exercem sobre nós um poder curiosíssimo e, de certa forma, irresistível.

não é que nós, homens, sejamos dos mais resistentes. muitíssimo pelo contrário, somos praticamente feitos de açúcar: derretemos completamente ao menor sinal de um elemento mais forte. frágeis e facilmente levados pela tentação, sobrevivemos à mercê da vontade feminina, o elemento mais poderoso que há, e à margem da sociedade civilizada (que, obviamente, é composta apenas pelas mulheres). em que pese esta nossa gigantesca fragilidade, não posso, de forma alguma, retirar o imenso, o terrível poder que elas exercem sobre nós.

um pedido de uma mulher bonita (ou, no mínimo, interessante) é um mandamento divino, uma bula papal, é, em suma, uma ordem militar, cuja simples recusa ensejará a mais terrível das cortes marciais: a presidida pela testosterona. porque um homem jamais se perdoa quando, por distração, nega um pedido feminino.

não pretendo, a propósito, nos colocar como santos altruístas, nascidos para servir os outros. não somos, tampouco, vis seres sexuais cuja totalidade dos atos é realizada com o pensamento numa possível (e sempre improvável) rapidinha. a questão é, como se diz, muito mais embaixo, muito mais profunda do que os estúpidos hormônios. a questão é, em realidade, absolutamente inexplicável. é, no entanto, justificada, baseado nessa verdade absoluta e inquestionável (provavelmente a única de sua espécie): o homem é, e sempre será, um escravo, um completo idiota e um canino obediente diante da mulher bonita.

eu, por exemplo, abandono agora uma prolongada abstinência de canetas e cadernos, sob o ridículo pretexto de escrever sobre as relações intersexuais, quando, na verdade, o único motivo pelo qual o fiz foi ouvir de um exemplar, fabuloso em seus decotes e cabelos castanhos, da mais irresistível e incomparável das raças femininas, a morena cratense, que eu estava desperdiçando meu talento ao não escrever. não concordo com a tamanha generosidade na afirmação da morena, mas como negar-lhe um pedido?

Quarta-feira, Outubro 31, 2007

um pardal chamado gerúndio.

estava cansada. na verdade, estava mais do que cansada, estava exausta. as mãos doíam, as costas doíam, a alma doía. não seria nova demais para toda aquela dor?, pensava. afinal, não era mais do que uma jovem na tenra idade de vinte e um. houvera um tempo, é verdade, onde aquele cansaço exacerbado não existia, onde a tranquilidade havia existido. como havia sido feliz, céus, e como era deprimente lembrar que os seus bons tempos eram idos. enquanto isso, o tempo encurtava a olhos vistos: havia a faculdade, o trabalho, a família.

era só durante o seu único tempo de paz, no café da tarde, que a dor afrouxava um pouco as rédeas. era neste descanso, às cinco da tarde, quando sentava na varanda e tomava seu café, misturado com leite e cansaço, que surgia, com uma regularidade quase anglo-saxã, um pequeno e magro pardal. incrível, pensava ela, a pontualidade do pássaro que surgia em sua vida todos os dias: era quase como se soubesse as horas. mas não poderia saber, não passava de um pássaro estúpido. como odiaria ser aquele pássaro, pensava a jovem dolorida, como odiaria viver sem um único propósito, sem uma única razão além de perpetuar sua própria espécie. o tempo de viver assim, pensava, já era passado; o tempo de aproveitar as pequenas belezas da vida era, então, irrevogavelmente terminado.

entretanto, apesar de odiá-lo, a observação do pardal lhe dava um certo prazer. não sabia ao certo se um prazer estético, pois era um pássaro de certa forma bonito, ou se um prazer arrogante, por saber que lhe era superior, que se assim decidisse poderia esmagá-lo com as próprias mãos. assim, acostumou-se a observá-lo todos os dias, às cinco da tarde, e o pardal acostumou-se a sentir o cheiro do café com leite e cansaço e a receber migalhas do pão de anteontem, tão duras que sequer os cães as comiam.

percebeu, então, que o que a atraía ao pardal era a completa diferença de formas de viver. ela caminhava sempre no passado, sempre no que fora e que não era mais, e o pássaro era o eterno presente, sem qualquer memória do que havia sido e qualquer esperança no que haveria de ser; ela era, verdadeiramente, um verbo no particípio, qualquer que fosse ele, enquanto a pequena ave era um verbo constantemente no gerúndio, sempre vivendo, voando, cantando, sofrendo.

ela perceberia, com o tempo, que deveria ser como aquele pardal, que era jovem demais para debruçar-se no passado, que deveria ser gerúndio, não futuro do pretérito, nem pretérito mais-que-perfeito e jamais particípio. aos poucos, a idéia surgiria em sua mente e ainda haveria forças o suficiente. então, quem sabe, mudaria de tempo verbal, pondo fim ao fim de sua vida e começando novamente o começo.
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[a natália, amiga nova, parceira nova, que fez este samba comigo.]

Sábado, Agosto 25, 2007

ciclo de estrelas.

ao velho, não muita coisa se mostrava importante: o seu roupão, quase tão velho quanto ele; o seu cantil, lembrança de velhos tempos; as suas traças e seus entorpecentes, companheiros de longa data. afinal, quanto mais importância as coisas têm, maiores as preocupações que trazem. pelo menos, assim pensava o velho, até que ela surgira.

quem sabe uma musa, quem sabe um anjo em pele de demônio ou vice-versa. o que ela era não estava claro, ou ao menos não ainda, mas não importava ao velho. ela lhe importava, somente ela. exatamente ela, com seus lábios voluptuosos, como que berços de estrelas. atraíam para si a atenção de qualquer homem e com o velho não fora diferente. estava velho, sim, mas não morto.
estivera morto, é verdade, por muito tempo. fora nessa época, inclusive, que as traças aproximaram-se dele. atraídas pelo velho roupão, que jamais comeriam, chegaram ao velho e jamais saíram. viviam famintas, mas permaneciam por um sentimento de obrigação: onde mais devem estar traças se não em mortos?

se morto estivesse ainda, não seria capaz de notar o imenso céu estrelado que residia no sorriso fulgurante dela. era um sorriso incrível, um conjunto de mil sóis, brilhava tanto que cegaria um desavisado que por ali passasse e olhasse diretamente (cegaria-o, sim, se não o matasse de amores antes disso).

quando estivera morto, entretanto, não fora por amores. fora um morto que nunca havia morrido, na verdade: escolhera estar morto. morre-se quando se escolhe estar morto? as melhores viagens, os maiores amigos, as mais fortes poções não foram capazes de ressuscitá-lo. de alguma forma, ela fora. com seus lábios, seu sorriso, ela trouxera-o de volta à vida. mais do que isso, trouxera-lhe de volta a vontade de viver, de livrar-se da cegueira para ver seu imenso sorriso.

cegar por cegar, na verdade, deveriam os deuses cegá-la. porque o que capturava as almas dos homens, até a pequena alma do velho do roupão, eram seus olhos. na verdade, o ciclo inteiro das estrelas podia ser resumido nela. se nos lábios nasciam e no sorriso viviam, nos olhos morriam. seus olhos possuíam um brilho profundo, como se uma estrela tivesse afundado, como que naufragada, mas não em águas: em almas.

o velho, de fato, daria a vida recém-recuperada para afundar-se naqueles lábios de estrelas recém-nascidas, no sorriso de mil sóis e nos olhos de estrelas afogadas. enquanto não podia dar a vida, dava sua alma, aos poucos, como que por oferenda aos deuses que a trouxeram a ele. assim, aos poucos, as traças deixavam-no, em busca de novos roupões em novos velhos. o velho, feliz, não notava: pensava nela.

Domingo, Junho 03, 2007

insuportável.

sempre fora, sim, um homem de gostos intensos, o doce não era para ele. mas ela era demais, terrivelmente insuportável. não insuportavelmente amável, apenas insuportável. como se fizesse esforço para não agradar a ninguém. era fria, quase gélida, como se naquelas veias não corresse sangue. como se jamais houvesse corrido. ríspida, também, falava sempre como se falasse a um cão que atravancasse o seu caminho. ela irritava-o profundamente, feria seu orgulho, sua vaidade.

era, entretanto, insuportavelmente bela, como se desenhada pela paixão. um demônio sedutor, uma prova de que a beleza não andava de mãos dadas com a doçura. possuía o sorriso mais incandescente, embora raramente o mostrasse. o que de mais incrível havia nela era a personalidade, irascível, monstruosamente única, incomparável. ela acendia-o profundamente, inspirava-o, incitava-o a suportá-la.

irritava-o e acendia-o. ele não conseguia, jamais havia conseguido, compreender o que sentia. por ela, ele era uma fogueira incessante. uma fornalha de raiva e admiração, quem sabe de amor. ele nunca compreendera a admiração, não condizia com sua vaidade, mas como não admirá-la? ela era louca, insuportavelmente louca, e existe uma beleza, uma força, uma graça, que só a loucura seria capaz de ter.

amava-a, sim, ainda que não soubesse se a amava: sequer lembrava o que era o amor. mas devia sê-lo. faria qualquer coisa por ela, por sua terrível e constante desaprovação. talvez fosse, entretanto, a indefinição do sentimento que o enlouquecesse mais do que qualquer outra coisa. talvez fosse, também, a condição etérea de tudo aquilo. afinal, nunca a havia tocado, provavelmente nunca tocaria. ainda que não compreendesse nada, era sua musa e por isso a amava.

por mais que fosse a musa mais bela já vista pelas mentes humanas, não era bela o suficiente para estar além do alcance do tempo, e então sua beleza padeceria com sua juventude. para ele, no entanto, seguiria sendo para sempre sua musa, eternamente bela. mesmo quando passassem e a terra comesse seus olhos e as pessoas vivas os esquecessem.

Segunda-feira, Maio 28, 2007

resquício.

fora grande, um dia. não tanto quanto gostava de lembrar, nem tão pouco quanto diziam seus adversários. o fato é que, um dia, fora maior do que a maioria. culto, diziam a ele; inteligente, dizia a si. em algum lugar no caminho, perdera-se. era, então, um resquício, uma relíquia de um tempo passado. do que fora, restava pouco. um roupão velho, que as traças recusavam-se a corroer, como por respeito; talvez um cantil de prata, presente de um rei esquecido ou imaginado; uma melancolia infinita, finalmente libertada dos calabouços da alma.

falava e pensava como um velho, embora sem cronologicamente sê-lo: não era velho, estava velho. estava gasto, como um brinquedo usado que assiste a sua criança esquecê-lo. suas crianças esqueceram-no, ou talvez nunca as tivera. a despeito disso suportava-se na sua posição, fosse a de monarca imaginado ou de piada esquecida. as traças tampouco o comiam, por falta de gosto.

apesar de tudo, continuava. apesar da melancolia, dos órgãos corroídos, continuava. não morria, mas não por dureza. não morria porque era morto. como morre um morto? seus amigos, os que restavam, diziam que havia ainda o que buscar, que havia ainda traços de vida. perdoava-os, pois não sabiam o que dizer. não o conheceram quando era mais do que uma língua afiada e um gosto por entorpecentes.

a verdade é que não havia vida, provavelmente nunca houvera. provavelmente sempre tivera sido a morte vivida e possivelmente sempre estaria ali, com seu roupão velho, seu cantil de prata e suas traças famintas. enquanto lembrassem seu nome, estaria ali, com sua melancolia e seu fígado destruído. quando finalmente passassem todos que o conheceram e todos que ouviram falar nele, então, quem sabe, passaria. só então, quem sabe, morreria a morte da vida que nunca vivera.

Segunda-feira, Abril 09, 2007

a semana santa.

desde criança, a semana santa jamais foi meu feriado favorito. como criança magra, os ovos de páscoa, por deliciosos que fossem – e eram -, não me tinham grande apelo, chegando a passarem semanas para serem comidos. a malhação do judas, da mesma forma, ainda que de certo modo divertida, me parecia tão violenta, tão grotesca que, na minha mente infantil, tudo que conseguia pensar era “se querem matá-lo, que o matem, mas não assim.” de uma forma ou de outra, por um símbolo ou por outro, a semana santa nunca foi vívida o suficiente para me causar amor ou ódio: sempre me foi simplesmente um feriado longo e ocioso. mas é isto, na verdade: a semana santa não é vívida. tire-lhe o aspecto religioso e ela é vazia. o ano-novo tem toda uma simbologia, o natal tem todo um espírito, o carnaval tem toda uma alma, a semana santa só tem uma mitologia. em todos os quartos escondidos da minha memória, não encontro uma semana santa sequer que tenha sido divertida. esta última não foi diferente: o tédio, companheiro alado e inseparável da semana santa, forjou uma terrível aliança com a pior das assassinas: a sinusite crônica, traço familiar que meu bom nariz escolheu para herdar. sob a força dessa aliança, eu queimei tão rapidamente quanto roma nas mãos de nero. tornei-me incapaz de apanhar um livro, de tomar um vinho, até de olhar o mar, o meu caro mar, que sempre me acompanhou em todos os momentos. em suma, esta soberba semana santa, graças a uma monstruosa aliança de duas entidades mais fortes do que eu, foi vã, completamente vã.

Quinta-feira, Março 15, 2007

sobre beija-flores e marias.

por toda a criação, os animais estão presos aos infortúnios da espécie e à brutalidade do instinto. todos comem, dormem, morrem. menos um: o beija-flor, que nunca come, nunca dorme e nunca, nunca mesmo, morre. afinal, quem já viu um beija-flor morto? em algumas tribos indígenas, a maior ofensa contra os deuses que pode haver é a matança ou, ainda pior, a captura de um. pior, sim, pois ainda que a morte seja inatural para os beija-flores, ainda mais é a captura e o aprisionamento de um ente que nasceu da liberdade. porque o beija-flor nasceu das mãos de um poeta, fugiu de um conto de fadas e povoou o mundo. tão mágico é que está livre das leis da física: não anda ou plana, flutua. é um ser cujo maior bem é a liberdade. tão livre é que não se vê de onde vem e para onde vai ("olha o beija-flor! onde? passou."), e mesmo os mais enamorados de suas flores fogem ao menor sinal de aprisionamento. afortunados aqueles que têm os seus jardins belos o suficiente para atrair a atenção de um. por fim, são eles as únicas criaturas que têm o privilégio de viver de um capricho: flores. tão poderosos são em sua magia que transmutam tal capricho na mais eterna das paixões. em verdade, o beija-flor, etéreo como um sonho, é anjo entre anjos.

com isso em mente, o garoto disca e diz: - maria, você é como um beija-flor porque você não anda, você flutua.

a garota, confusa, se delicia com o elogio. o garoto, satisfeito, se delicia com a perfeição da metáfora.

Terça-feira, Fevereiro 13, 2007

ócio criativo.

não suporto férias. não entendam mal, não é que seja apaixonado pelas aulas, apenas não suporto o tédio mortal que as férias trazem consigo. claro, há a noite, o descanso, o sono; mas a maior parte do tempo é preenchida com um grande e gordo nada. o nada, ao contrário do que pensam alguns, não é bonito. o nada, ao contrário do que dizem muitos, não é nada divertido. o nada é triste, o nada é estático, o nada, em bom português, é uma merda. "mas que delícia é o ócio criativo!", escrevem alguns. o ócio é um criminoso, o ócio é um ladrão de mentes e de espíritos: rouba tudo o que há numa pessoa, em troca de alguns minutos de parco prazer. vejam bem, sou um fã da preguiça, mas a preguiça é o não fazer nada quando há algo a ser feito, é um descansar antes de cansar-se. o ócio, pelo contrário, é o vácuo, é o nada a ser feito, nada a ser pensado, nada a ser sentido. a preguiça não é a mãe de todos os males, o ócio é! nada mais belo do que ter mil coisas a fazer e deitar numa rede e olhar o mar. deitar numa rede sem ter nada a fazer é que é hediondo, é que é a apoteose da incapacidade humana. eu trocaria, sem pensar duas vezes, um dia de ócio criativo por um século de preguiça bem aproveitada.

Quarta-feira, Dezembro 06, 2006

ano-novo.

aproxima-se o ano-novo, o dia favorito do meu ano. para mim, a mudança sempre tem algo de mágico: qualquer mudança, não só de ano. a mudança de endereços, de estações, de ares, de copos, de músicas, de livros, de amores. a mudança é mágica, na verdade, porque atua como um portal entre um mundo velho e um mundo novo, é como um atlântico entre duas épocas: banha ambas as margens, mantendo-as separadas e, no entanto, tão unidas. a beleza está na junção, está na mistura do novo com o velho, dos resquícios da antigüidade com as promessas da novidade. daí que vem toda a fabulosa simbologia do ano-novo: junto com aquela singular meia-noite vêm outras vidas, outros amores, outros amigos. mesmo que todos continuem os mesmos do ano anterior, são como que novos, como que frescos, como que recém caídos da árvore. e então tudo se renova, tudo é encantador de novo, como se as flores se tornassem mais belas tão somente por terem sobrevivido àquela meia-noite. é, na verdade, a promessa de muitas flores e luas cheias por vir. não importa se iguais: são sempre diferentes e são sempre as mesmas, sempre guardam um pouco das velhas e semeiam o início das novas. tudo isto reunido numa aparentemente par (mas sensivelmente ímpar) meia-noite. quão tristes seríamos sem essa meia-noite: seria uma vida quase que eterna, sem fim, estática. seria uma vida anêmica, uma imensa quarta-feira de cinzas.

Domingo, Novembro 19, 2006

mudança.

esta semana, mudei-me.
no endereço antigo,
ficaram meu primeiro porre,
minha primeira tragada,
meu primeiro amor.


no novo,
nada além
das promessas
de outros porres,
outras tragadas,
outros amores.


deveras, a casa não muda,
quem muda é a gente.

Segunda-feira, Novembro 13, 2006

o vizinho.

de todas as características humanas, a mais peculiar é a incapacidade de estar satisfeito: sempre se quer mais, nunca se tem o bastante. a grama do vizinho é sempre mais verde, a sua mulher é sempre mais cobiçável, seu emprego é sempre melhor, seu salário sempre maior, seu filho sempre mais santo, seu cachorro sempre mais forte, seu cavalo sempre mais rápido, seu gato sempre mais gordo, sua roupa sempre mais cara, sua casa sempre mais rica, sua família sempre mais linda, sua vida sempre perfeita. o vizinho em si, então, é sempre um deus greco-romano, de olhos sempre azuis e músculos sempre rijos, medindo jamais menos do que um metro e noventa. não importa como ele de fato seja, é assim que é visto pelo seu vizinho e é assim também que o vê; de fato, sempre se quer ser o vizinho, ter a sua vida fácil. de tal forma, jamais se está satisfeito, nada jamais basta. o que não se percebe é que todos esses desejos se igualam aos delírios utópicos de um pebleu que sonha em ser monarca, mas esquece que o trono está ocupado (provavelmente pelo vizinho) e que o rei é imortal: o que se quer é o cargo que sempre estará ocupado. (mas que essa pobre crônica seria bem melhor se fosse escrita pelo vizinho, isso seria.)

Sexta-feira, Agosto 25, 2006

quinta-feira.

numa quinta-feira insanta, numa completa falta do que fazer, eu olho o mar. mas afinal, o que se há de fazer numa quinta-feira? não tem a promessa de uma sexta-feira, a vitalidade de um sábado e sequer o saudosismo de um domingo. é como se tudo simplesmente apontasse para a presença do tédio. os coqueiros sabem que não há nada a fazer, e então nada fazem; é como se não quisessem dançar ao vento. até mesmo o sol, o velho sol, dá uma trégua e parece mais fraco. é nessa monotonia completa que eu paro, sento e olho o mar. não que não tenha tentado fazer outra coisa, mas parece que as coisas não querem ser feitas. os livros fecham, não querem ser lidos, as cartas voam e não admitem ser jogadas, até a minha velha espingarda, com a qual fui o terror dos passarinhos na minha infância, cospe e se recusa a atirar. a piscina se torna gélida, como se dissesse que nela ninguém entra, e os cocos estão verdes, aludindo a uma possível maturidade numa provável sexta-feira. a solução, então, seria dormir, se já não tivesse dormido demais. o sono, até o sono, o incansável sono, o último recurso de todos os casos, não quer ser dormido. então, eu sento, e olho o mar. afinal, o que se há de fazer numa quinta-feira?