Segunda-feira, Março 23, 2009
lanternas no escuro.
Segunda-feira, Março 16, 2009
aquelas ruas de maio.

Sábado, Fevereiro 28, 2009
a menina que chora.
Quinta-feira, Novembro 20, 2008
elza versus gal.
Domingo, Setembro 14, 2008
sobre um avô e uma espingarda.
Terça-feira, Setembro 02, 2008
o poder da mulher bonita (ou a morena cratense).
eu não escrevia há meses. contista frustrado e cronista preguiçoso, tenho, de fato, deixado esse velho bloco de notas sem razão de ser há um bom tempo. não escrevia, é verdade, mas não por não gostar de fazê-lo. pelo contrário, amo escrever, sinto-me absolutamente livre. mas o papel está tão longe e a cama tão perto! e os homens devem, ao menos de vez em quando, entregar-se à preguiça, como se entregam a uma mulher bonita. de nada adianta lutar contra as duas, que exercem sobre nós um poder curiosíssimo e, de certa forma, irresistível.
não é que nós, homens, sejamos dos mais resistentes. muitíssimo pelo contrário, somos praticamente feitos de açúcar: derretemos completamente ao menor sinal de um elemento mais forte. frágeis e facilmente levados pela tentação, sobrevivemos à mercê da vontade feminina, o elemento mais poderoso que há, e à margem da sociedade civilizada (que, obviamente, é composta apenas pelas mulheres). em que pese esta nossa gigantesca fragilidade, não posso, de forma alguma, retirar o imenso, o terrível poder que elas exercem sobre nós.
um pedido de uma mulher bonita (ou, no mínimo, interessante) é um mandamento divino, uma bula papal, é, em suma, uma ordem militar, cuja simples recusa ensejará a mais terrível das cortes marciais: a presidida pela testosterona. porque um homem jamais se perdoa quando, por distração, nega um pedido feminino.
não pretendo, a propósito, nos colocar como santos altruístas, nascidos para servir os outros. não somos, tampouco, vis seres sexuais cuja totalidade dos atos é realizada com o pensamento numa possível (e sempre improvável) rapidinha. a questão é, como se diz, muito mais embaixo, muito mais profunda do que os estúpidos hormônios. a questão é, em realidade, absolutamente inexplicável. é, no entanto, justificada, baseado nessa verdade absoluta e inquestionável (provavelmente a única de sua espécie): o homem é, e sempre será, um escravo, um completo idiota e um canino obediente diante da mulher bonita.
eu, por exemplo, abandono agora uma prolongada abstinência de canetas e cadernos, sob o ridículo pretexto de escrever sobre as relações intersexuais, quando, na verdade, o único motivo pelo qual o fiz foi ouvir de um exemplar, fabuloso em seus decotes e cabelos castanhos, da mais irresistível e incomparável das raças femininas, a morena cratense, que eu estava desperdiçando meu talento ao não escrever. não concordo com a tamanha generosidade na afirmação da morena, mas como negar-lhe um pedido?
Quarta-feira, Outubro 31, 2007
um pardal chamado gerúndio.
era só durante o seu único tempo de paz, no café da tarde, que a dor afrouxava um pouco as rédeas. era neste descanso, às cinco da tarde, quando sentava na varanda e tomava seu café, misturado com leite e cansaço, que surgia, com uma regularidade quase anglo-saxã, um pequeno e magro pardal. incrível, pensava ela, a pontualidade do pássaro que surgia em sua vida todos os dias: era quase como se soubesse as horas. mas não poderia saber, não passava de um pássaro estúpido. como odiaria ser aquele pássaro, pensava a jovem dolorida, como odiaria viver sem um único propósito, sem uma única razão além de perpetuar sua própria espécie. o tempo de viver assim, pensava, já era passado; o tempo de aproveitar as pequenas belezas da vida era, então, irrevogavelmente terminado.
Sábado, Agosto 25, 2007
ciclo de estrelas.
quem sabe uma musa, quem sabe um anjo em pele de demônio ou vice-versa. o que ela era não estava claro, ou ao menos não ainda, mas não importava ao velho. ela lhe importava, somente ela. exatamente ela, com seus lábios voluptuosos, como que berços de estrelas. atraíam para si a atenção de qualquer homem e com o velho não fora diferente. estava velho, sim, mas não morto.
se morto estivesse ainda, não seria capaz de notar o imenso céu estrelado que residia no sorriso fulgurante dela. era um sorriso incrível, um conjunto de mil sóis, brilhava tanto que cegaria um desavisado que por ali passasse e olhasse diretamente (cegaria-o, sim, se não o matasse de amores antes disso).
quando estivera morto, entretanto, não fora por amores. fora um morto que nunca havia morrido, na verdade: escolhera estar morto. morre-se quando se escolhe estar morto? as melhores viagens, os maiores amigos, as mais fortes poções não foram capazes de ressuscitá-lo. de alguma forma, ela fora. com seus lábios, seu sorriso, ela trouxera-o de volta à vida. mais do que isso, trouxera-lhe de volta a vontade de viver, de livrar-se da cegueira para ver seu imenso sorriso.
cegar por cegar, na verdade, deveriam os deuses cegá-la. porque o que capturava as almas dos homens, até a pequena alma do velho do roupão, eram seus olhos. na verdade, o ciclo inteiro das estrelas podia ser resumido nela. se nos lábios nasciam e no sorriso viviam, nos olhos morriam. seus olhos possuíam um brilho profundo, como se uma estrela tivesse afundado, como que naufragada, mas não em águas: em almas.
o velho, de fato, daria a vida recém-recuperada para afundar-se naqueles lábios de estrelas recém-nascidas, no sorriso de mil sóis e nos olhos de estrelas afogadas. enquanto não podia dar a vida, dava sua alma, aos poucos, como que por oferenda aos deuses que a trouxeram a ele. assim, aos poucos, as traças deixavam-no, em busca de novos roupões em novos velhos. o velho, feliz, não notava: pensava nela.
Domingo, Junho 03, 2007
insuportável.
sempre fora, sim, um homem de gostos intensos, o doce não era para ele. mas ela era demais, terrivelmente insuportável. não insuportavelmente amável, apenas insuportável. como se fizesse esforço para não agradar a ninguém. era fria, quase gélida, como se naquelas veias não corresse sangue. como se jamais houvesse corrido. ríspida, também, falava sempre como se falasse a um cão que atravancasse o seu caminho. ela irritava-o profundamente, feria seu orgulho, sua vaidade.
era, entretanto, insuportavelmente bela, como se desenhada pela paixão. um demônio sedutor, uma prova de que a beleza não andava de mãos dadas com a doçura. possuía o sorriso mais incandescente, embora raramente o mostrasse. o que de mais incrível havia nela era a personalidade, irascível, monstruosamente única, incomparável. ela acendia-o profundamente, inspirava-o, incitava-o a suportá-la.
irritava-o e acendia-o. ele não conseguia, jamais havia conseguido, compreender o que sentia. por ela, ele era uma fogueira incessante. uma fornalha de raiva e admiração, quem sabe de amor. ele nunca compreendera a admiração, não condizia com sua vaidade, mas como não admirá-la? ela era louca, insuportavelmente louca, e existe uma beleza, uma força, uma graça, que só a loucura seria capaz de ter.
amava-a, sim, ainda que não soubesse se a amava: sequer lembrava o que era o amor. mas devia sê-lo. faria qualquer coisa por ela, por sua terrível e constante desaprovação. talvez fosse, entretanto, a indefinição do sentimento que o enlouquecesse mais do que qualquer outra coisa. talvez fosse, também, a condição etérea de tudo aquilo. afinal, nunca a havia tocado, provavelmente nunca tocaria. ainda que não compreendesse nada, era sua musa e por isso a amava.
por mais que fosse a musa mais bela já vista pelas mentes humanas, não era bela o suficiente para estar além do alcance do tempo, e então sua beleza padeceria com sua juventude. para ele, no entanto, seguiria sendo para sempre sua musa, eternamente bela. mesmo quando passassem e a terra comesse seus olhos e as pessoas vivas os esquecessem.
Segunda-feira, Maio 28, 2007
resquício.
Segunda-feira, Abril 09, 2007
a semana santa.
Quinta-feira, Março 15, 2007
sobre beija-flores e marias.
com isso em mente, o garoto disca e diz: - maria, você é como um beija-flor porque você não anda, você flutua.
a garota, confusa, se delicia com o elogio. o garoto, satisfeito, se delicia com a perfeição da metáfora.
Terça-feira, Fevereiro 13, 2007
ócio criativo.
não suporto férias. não entendam mal, não é que seja apaixonado pelas aulas, apenas não suporto o tédio mortal que as férias trazem consigo. claro, há a noite, o descanso, o sono; mas a maior parte do tempo é preenchida com um grande e gordo nada. o nada, ao contrário do que pensam alguns, não é bonito. o nada, ao contrário do que dizem muitos, não é nada divertido. o nada é triste, o nada é estático, o nada, em bom português, é uma merda. "mas que delícia é o ócio criativo!", escrevem alguns. o ócio é um criminoso, o ócio é um ladrão de mentes e de espíritos: rouba tudo o que há numa pessoa, em troca de alguns minutos de parco prazer. vejam bem, sou um fã da preguiça, mas a preguiça é o não fazer nada quando há algo a ser feito, é um descansar antes de cansar-se. o ócio, pelo contrário, é o vácuo, é o nada a ser feito, nada a ser pensado, nada a ser sentido. a preguiça não é a mãe de todos os males, o ócio é! nada mais belo do que ter mil coisas a fazer e deitar numa rede e olhar o mar. deitar numa rede sem ter nada a fazer é que é hediondo, é que é a apoteose da incapacidade humana. eu trocaria, sem pensar duas vezes, um dia de ócio criativo por um século de preguiça bem aproveitada.
Quarta-feira, Dezembro 06, 2006
ano-novo.
Domingo, Novembro 19, 2006
mudança.
esta semana, mudei-me.
no endereço antigo,
ficaram meu primeiro porre,
minha primeira tragada,
meu primeiro amor.
no novo,
nada além
das promessas
de outros porres,
outras tragadas,
outros amores.
deveras, a casa não muda,
quem muda é a gente.
